Em tempos de moda cada vez mais rápida, conhecer quem está por trás daquilo que vestimos pode ser uma experiência bastante interessante.
Existem marcas que produzem em pequenas quantidades, valorizam processos artesanais, desenvolvem estampas e materiais próprios, investem em modelagem e prestam atenção aos detalhes.
São escolhas que fazem diferença naquilo que chega até nós.
É justamente esse tipo de trabalho que me interessa.
Por isso, reuni aqui seis marcas brasileiras autorais que admiro por motivos diferentes. Algumas me conquistam pelo desenho, outras pela técnica, pelos materiais, pelas cores ou simplesmente pela maneira como conseguem traduzir uma identidade tão própria em seus produtos.
São marcas que mostram que comprar moda pode ser uma forma de valorizar criação, conhecimento e trabalho.
A Mafalda: sapatos com identidade paulistana
Vou começar pelos pés.
A Mafalda é uma marca paulistana de sapatos que existe há quase 20 anos e preserva um jeito de fazer muito especial.
Os modelos são desenhados à mão pela fundadora e produzidos artesanalmente, em pequenas quantidades.
As inspirações vêm do cotidiano, das texturas e das formas da cidade. Gosto de pensar que a vida urbana pode dar origem a um acessório tão pessoal quanto um par de sapatos.
Talvez seja por isso que os modelos transmitam, ao mesmo tempo, força e delicadeza.
Os sapatos da marca têm um desenho que realmente veste o pé. Os couros mais estruturados, as costuras aparentes e os solados robustos comunicam resistência.
Em contraste, a cartela de cores — que passeia pelo off-white, pelos vermelhos, verdes e por tons discretos de prata e dourado — traz leveza e personalidade.
O resultado é um design contemporâneo, autoral e cheio de identidade.
Emi Rio: quando a estampa vira poesia
Em tempos tão acelerados, o que pode ser mais luxuoso do que vestir uma roupa com uma estampa pintada à mão?
É essa sensação que tenho quando conheci o trabalho da Emi Rio, uma delicada marca carioca que transforma estampas em algo lúdico, poético.
Flores, galhos, pequenos animais e outros elementos da natureza inspiram os desenhos que dão vida a vestidos, saias, blusas e outras peças cheias de personalidade.
Tudo transmite leveza, fluidez e um frescor que combina tão bem com um país como o nosso, onde o calor e a luz do sol fazem parte do cotidiano.
Mas talvez o que mais me encante seja perceber que existe uma história por trás da roupa.
Em vez de simplesmente reproduzir uma tendência, a marca cria uma linguagem própria a partir das estampas.
É o tipo de trabalho que me faz lembrar que a roupa também pode contar uma história — e isso nunca sai de moda.
Printing: quando a técnica faz toda a diferença
Modelagem precisa.
Ajustes feitos no corpo da cliente.
Sobreposição de tecidos.
Desenvolvimento exclusivo de cores, estampas e materiais.
É um trabalho que merece ser aplaudido.
Por isso que admiro tanto a Printing, marca de Belo Horizonte que há quase duas décadas preserva aquilo que mais valorizo na moda: rigor técnico, precisão de modelagem, excelência na costura e uma curadoria cuidadosa de tecidos.
Existe uma diferença entre uma peça que simplesmente parece bonita e outra que revela, quando observada com atenção, todo o conhecimento necessário para que ela exista.
Na Printing, esse cuidado está na construção da roupa.
É por isso que o resultado tem tanta força.
Em um mercado que muitas vezes privilegia a velocidade, marcas como a Printing nos lembram de que técnica também pode ser uma forma de criatividade.
Casa Vasconcellos: o charme de transformar joias
Você já ouviu falar em upcycling de jóias?
Para mim, essa é uma das formas mais interessantes e atuais de pensar o consumo de joias.
Na prática, significa dar uma nova vida a peças antigas, reaproveitando seus materiais para criar novas jóias.
A Casa Vasconcellos trabalha exatamente assim, criando anéis, brincos, pulseiras, colares e outras peças cheias de personalidade.
Talvez seja por isso que suas criações tenham um certo ar de joias antigas.
E, na minha opinião, é justamente esse detalhe que dá tanto charme ao trabalho da marca.
Existe algo muito bonito em transformar uma peça que já teve uma história em outra, sem apagar completamente aquilo que veio antes.
Além das joias para o dia a dia, a marca também cria acessórios especiais para festas e noivas, como tiaras e coroas.
É uma maneira interessante de unir memória, design e reaproveitamento.
Sardina: um jeito carioca de vestir
“Carioca de ser.”
É assim que eu definiria a Sardina.
A marca parece ter saído de um álbum de férias à beira-mar.
Muito azul.
Muitas listras.
Tudo leve, prático e com pequenos detalhes que fazem toda a diferença.
Pode ser uma flor bordada, um pesponto em cor contrastante ou um botão diferente.
Nada parece excessivo.
E talvez seja justamente esse lugar que mistura tão bem uma certa simplicidade à criatividade, que dê tanto charme às peças.
A Sardina mostra que uma roupa não precisa ser complicada para ter personalidade.
Às vezes, basta um detalhe, uma cor, muito bem escolhida.
É uma marca para quem acredita que o charme está justamente nos detalhes — e que vestir-se também pode carregar uma certa alegria de viver.
Cache: chique e sem frescura
Chique e sem frescura.
Acho que essa é a melhor maneira de definir a Cache, outra marca autoral que gosto muito.
Ela trabalha com matérias-primas de excelente qualidade e cria peças com algo de chic, algo de feminino.
Na Caché, o destaque está na maneira inteligente de combinar as cores.
Na coleção mais recente, encontrei exemplos lindos de como fugir do óbvio: marrom com verde-limão, marrom com laranja.
São combinações improváveis, mas extremamente elegantes.
A marca mostra que elegância não significa previsibilidade.
Uma boa matéria-prima, uma construção bem pensada e uma combinação de cores inesperada.
Por que olhar para marcas autorais?
Conhecer as marcas que compramos é prestar atenção em quem produz, como produz e quais escolhas existem por trás de uma peça. Essa atitude muda a nossa relação com aquilo que consumimos.
Quando uma marca produz em pequenas quantidades, desenvolve seus próprios materiais, trabalha artesanalmente, investe em técnica ou reaproveita peças antigas, existe uma história que vai muito além do produto final.
E conhecer essas histórias nos ajuda a consumir de maneira mais consciente.
Podemos escolher aquilo que realmente conversa com o nosso estilo e valoriza o trabalho que existe por trás daquela criação.
Vestir pode ser uma forma de escolher, descobrir e valorizar.
Em meio a tanta velocidade, ainda existe espaço para aquilo que é feito com tempo, técnica e identidade.

